28 de noviembre de 2025

Banking as a Service, ou simplesmente BaaS, é um termo que pode soar como uma buzzword, mas na realidade representa uma transformação significativa no sistema financeiro.
Em vez de cada empresa precisar se tornar "meio banco" para oferecer contas, cartões, pagamentos ou crédito, agora é possível conectar-se à infraestrutura de um provedor regulado e disponibilizar esses serviços diretamente na sua própria experiência, com sua marca, seu aplicativo e sua jornada de cliente.
No Brasil, esse modelo ganhou destaque com o crescimento das contas digitais, a chegada do Pix, o avanço do Open Finance e uma postura cada vez mais inovadora do Banco Central. Como resultado, varejistas, empresas de tecnologia, marketplaces, indústrias e até marcas de serviços estão incorporando serviços financeiros de forma natural aos seus produtos, aumentando engajamento, receita e fidelização.
O que é Banking as a Service (BaaS)?
Banking as a Service é o modelo em que uma instituição regulada (banco, instituição de pagamento ou plataforma especializada) disponibiliza sua infraestrutura financeira por meio de APIs para que outras empresas ofereçam serviços financeiros sob sua própria marca.
Na prática, significa que:
A empresa de frente cuida da experiência do cliente: aplicativo, atendimento, proposta de valor, jornada de compra.
O provedor de BaaS cuida do bastidor regulado: conta de pagamento, conexões com o sistema financeiro, liquidação, compliance, prevenção à lavagem de dinheiro, segurança, trilhas de auditoria.
Esse modelo permite que empresas não financeiras ofereçam, por exemplo:
conta digital
cartão pré-pago, débito ou crédito
transferências (Pix, TED etc.)
pagamentos de boletos e faturas
soluções de cashback, benefícios e incentivos
crédito embutido (BNPL, limites, antecipações)
Tudo isso sem precisar pedir licença bancária própria ou construir uma operação financeira do zero.
Contexto do mercado e tendências no Brasil
O Brasil é um terreno particularmente fértil para BaaS. Alguns fatores ajudam a explicar.
Crescimento das contas digitais
Milhões de brasileiros passaram a usar contas digitais como principal relação com dinheiro, seja em bancos digitais, carteiras de pagamento ou apps de varejo. Isso abriu espaço para que outras marcas também oferecessem experiências financeiras.
Pix como infraestrutura pública potente
Com o Pix, o Banco Central criou um "linguajar comum" para pagamentos instantâneos, disponível 24 horas por dia, com custo baixo e alta adesão. Integrar Pix via um provedor de BaaS virou praticamente requisito mínimo para qualquer solução financeira moderna.
Open Finance e dados compartilháveis
O Open Finance permite que o cliente autorize o compartilhamento de seus dados financeiros entre instituições. Isso facilita ofertas mais personalizadas, como crédito com melhor precificação, produtos sob medida e recomendações inteligentes, integradas à oferta de BaaS.
Nova regulação e foco em competição
O Banco Central vem incentivando a entrada de novos players: instituições de pagamento, Sociedades de Crédito Direto, Sociedades de Empréstimo entre Pessoas, sandboxes regulatórios. Esse ambiente mais aberto estimula o surgimento de plataformas que usam licença própria para atender diversas empresas via modelo BaaS.
No fim das contas, serviços financeiros deixam de ser um produto isolado e passam a aparecer dentro de outros contextos: apps de transporte, marketplaces, lojas online, apps de benefícios corporativos e muitos outros.
Como funciona o modelo BaaS
O BaaS costuma seguir uma lógica B2B2C (ou B2B2B, dependendo do caso).
Provedor BaaS
É a instituição regulada que oferece a infraestrutura: conta, meios de pagamento, cartões, câmbio, crédito, trilhas de compliance, APIs, dashboards e relatórios. Normalmente é um banco licenciado, uma instituição de pagamento ou uma fintech com licença específica do Banco Central.
Empresa contratante
É a empresa que quer oferecer serviços financeiros para seus clientes, colaboradores, fornecedores ou parceiros. Pode ser um varejista, uma indústria, uma plataforma SaaS, uma exchange, um marketplace, uma empresa de benefícios ou uma plataforma B2B.
Cliente final
É quem de fato usa o produto financeiro, seja pessoa física ou jurídica.
Fluxo do modelo
De forma simplificada, o fluxo funciona assim:
A empresa contratante define que tipo de solução financeira quer oferecer (conta, cartão, pagamentos, crédito, incentivo etc.).
Ela se conecta às APIs do provedor de BaaS, que expõem funcionalidades como criar conta, emitir cartão, iniciar um Pix, consultar saldo, gerar extrato, validar KYC/KYB e outras.
A experiência acontece na interface da empresa contratante: app, site ou até canais como WhatsApp e integrações com sistemas internos.
No bastidor, o provedor de BaaS registra a conta, valida o titular, processa pagamentos, cumpre exigências do Banco Central, reporta informações, controla limites e monitora riscos.
O segredo do modelo está na abstração. A empresa não precisa entender tudo de regulação, infraestrutura bancária, risco e segurança. Ela se apoia na infraestrutura do parceiro e foca em produto, relacionamento e distribuição.
Benefícios e vantagens do BaaS
Para empresas
Entrada mais rápida no mercado
Em vez de passar anos estruturando licença, time regulatório, tecnologia de core bancário e integrações complexas, a empresa aproveita uma infraestrutura pronta e validada, reduzindo bastante o time to market.Redução de custos e CAPEX
Não é necessário investir pesado em plataforma proprietária, data center, especialistas em meios de pagamento e áreas inteiras de risco e compliance. Há custos, claro, mas é muito mais eficiente que construir tudo do zero.Foco no core do negócio
A empresa mantém o foco em conhecer o cliente, desenhar jornada, criar um produto aderente e fazer distribuição. A parte bancária fica com quem tem o dever regulatório de ser especialista nisso.Personalização do produto
A empresa pode desenhar ofertas financeiras que conversam com seu público de forma muito mais precisa: regras de cashback, benefícios atrelados ao consumo, limites casados com comportamento, bundles com serviços não financeiros e assim por diante.Nova fonte de receita
Serviços financeiros geram novas linhas de receita: interchange de cartão, spreads, mensalidade de conta premium, comissões sobre crédito ou seguros, taxas de serviço e outros modelos.
Para os clientes finais
Experiências mais simples e integradas
Em vez de usar um app para comprar e outro para pagar, o cliente faz tudo no mesmo ambiente.Produtos mais relevantes
Como a empresa conhece bem seu público, consegue oferecer algo que faça sentido naquela jornada, por exemplo uma linha de crédito ligada ao fluxo de vendas de um lojista ou uma conta digital focada em motoristas de plataforma.Acesso ampliado
Em muitos casos, o BaaS ajuda a incluir pessoas ou empresas que costumavam ser ignoradas pelos modelos bancários tradicionais.
Principais soluções e casos de uso de BaaS
O cardápio de soluções possíveis com BaaS é grande. Alguns exemplos comuns no Brasil:
Conta digital white label
Uma empresa oferece uma conta digital com sua marca, mas operada pela infraestrutura do provedor BaaS. Pode ser conta de pessoa física, jurídica ou segmentada (conta para motoristas, lojistas, entregadores, influenciadores etc.).
Cartões físicos e virtuais
Emissão de cartões pré-pagos, débito ou crédito atrelados à conta digital. Podem ser usados para consumo, benefícios corporativos, adiantamentos, despesas de viagem, incentivos de vendas e outros.
Pagamentos e transferências
Integrações de Pix, boletos, pagamentos de contas, cobranças recorrentes, QR Codes, links de pagamento. Tudo isso embutido dentro da jornada digital da empresa.
Soluções de incentivo e benefícios
Cartões ou carteiras digitais usados para bonificar equipes, parceiros, franqueados ou clientes, com regras específicas de uso.
Crédito embutido (embedded lending)
Ofertas de crédito surgem no contexto certo: antecipação de recebíveis para lojistas, limite adicional para clientes fidelizados, financiamento de compra dentro do próprio app, BNPL (compre agora e pague depois) dentro do e-commerce.
Produtos para empresas B2B
Contas empresariais com gestão de fluxo de caixa, múltiplos usuários, cartões corporativos, permissões de aprovadores, conciliação e integrações com ERPs.
Operações especializadas
Em alguns casos, o BaaS também se conecta com soluções mais complexas, como câmbio, on e off ramp cripto, gestão de tesouraria e arranjos específicos de pagamento para determinados setores.
Ecossistema: tipos de provedores e diferenciais de mercado
No Brasil, o ecossistema de BaaS é composto por alguns tipos de players.
Bancos e instituições de pagamento com plataforma BaaS
São instituições já reguladas que abriram suas estruturas via APIs para atender outras empresas. Algumas surgiram como bancos digitais, outras como instituições de pagamento focadas em conta e arranjos de pagamento.
Fintechs e plataformas especializadas
Empresas nascidas com a proposta de ser infraestrutura para terceiros, atuando como o "banco por trás" de marcas de varejo, plataformas e startups.
Hubs de pagamento e orquestradores
Alguns provedores vêm do mundo de meios de pagamento (cartões, adquirência, subadquirência) e evoluem para oferecer um conjunto mais completo de serviços financeiros, aproximando-se de BaaS.
Principais diferenciais ao comparar provedores
Entre os pontos mais importantes para avaliar estão:
robustez regulatória e histórico com o Banco Central
qualidade e estabilidade das APIs
documentação técnica, SDKs, exemplos e suporte para desenvolvedores
modelo de segurança, criptografia e auditoria
flexibilidade de produtos (escopo do que pode ser oferecido)
capacidade de personalização de jornada e branding
SLA de suporte, governança de incidentes e transparência
capacidade de escalar em volume de transações, contas, usuários e, em alguns casos, múltiplas moedas ou mercados
No fim, escolher provedor de BaaS não é só sobre preço. É escolher o alicerce do produto financeiro que vai carregar a marca da empresa.
Conexão com Open Finance e outras inovações
BaaS e Open Finance se reforçam mutuamente no Brasil.
Enquanto o BaaS fornece o "corpo" (infraestrutura para executar transações, abrir contas, emitir cartões, processar pagamentos), o Open Finance fornece o "cérebro de contexto" (dados e histórico, compartilhados com consentimento, que permitem decisões mais inteligentes).
Na prática, isso abre algumas possibilidades.
Personalização de produtos
Uma empresa que oferece conta via BaaS pode usar dados de Open Finance para entender melhor o risco de crédito, a renda, o comportamento financeiro e, com isso, ajustar limites, taxas e ofertas.
Portabilidade e competição
O cliente pode migrar seu histórico e relações financeiras para a solução criada pela empresa que usa BaaS, sem perder a memória de sua vida financeira.
Experiências mais integradas
Com Pix, Open Finance, BaaS e outras infraestruturas, a fronteira entre "banco", "carteira", "app de compras" e "plataforma de serviços" fica cada vez menos visível.
Tendências no radar
embedded finance em praticamente qualquer jornada digital relevante
plataformas B2B usando BaaS para se tornarem o "banco" do seu ecossistema de clientes
expansão internacional com modelos multimoeda e integrações com outros reguladores
uso de inteligência artificial para automação de compliance, detecção de fraude, recomendações e suporte
Desafios e pontos de atenção
Nem tudo é simples no mundo BaaS. Há alguns desafios importantes.
Adaptação tecnológica
A empresa precisa ter um mínimo de maturidade tecnológica para integrar APIs, manter seu app estável, cuidar de segurança e proteger dados. Não é só plugar e esquecer.
Governança e responsabilidades
Mesmo usando um provedor, a empresa continua tendo responsabilidade sobre a forma como oferece o produto financeiro, como se comunica com clientes, como resolve problemas e como trata dados. A parceria precisa ter contratos e SLAs bem definidos.
Complexidade regulatória
O regulador olha para o arranjo como um todo. Ter um parceiro regulado ajuda muito, mas não elimina a necessidade de a empresa entender o básico sobre requisitos legais, políticas de prevenção à lavagem de dinheiro, LGPD e regras de publicidade.
Equilíbrio entre custo e receita
É comum subestimar o esforço de ativar e engajar o usuário. Serviços financeiros só geram receita se forem usados. Custos de emissão, manutenção, suporte e operação precisam ser compensados com um plano claro de monetização.
Escolha do parceiro errado
Um provedor com APIs instáveis, baixa transparência, pouca clareza regulatória ou suporte fraco pode comprometer a experiência do cliente final e até gerar risco de imagem para a marca.
Conclusão
Banking as a Service está redesenhando o mapa do sistema financeiro no Brasil.
Em vez de poucos grandes bancos donos de toda a experiência do usuário, começa a surgir uma rede em que marcas de todos os setores podem oferecer serviços financeiros conectados à vida real das pessoas e empresas.
Para quem olha de fora, pode parecer só mais um jargão. Para quem está dentro, fica claro que BaaS é uma forma concreta de democratizar o acesso a serviços financeiros, abrir espaço para mais competição e permitir que produtos sejam construídos com foco genuíno no usuário, e não apenas na lógica do sistema bancário tradicional.
Empresas que desejam entrar nesse jogo precisam de três coisas:
uma estratégia clara do motivo pelo qual querem oferecer serviços financeiros
entendimento mínimo dos requisitos regulatórios e operacionais
escolha criteriosa de um parceiro de BaaS sólido, transparente e alinhado com seus objetivos
Quando esses elementos se alinham, banking deixa de ser "coisa de banco" e passa a ser parte natural da proposta de valor de qualquer negócio.
FAQ sobre Banking as a Service
O que é Banking as a Service em poucas palavras?
É o modelo em que uma empresa se conecta à infraestrutura de uma instituição regulada para oferecer serviços financeiros (conta, cartão, pagamentos, crédito) sob sua própria marca, usando APIs.
BaaS é a mesma coisa que Open Finance?
Não. BaaS é infraestrutura para executar serviços financeiros. Open Finance é o conjunto de regras e tecnologias que permitem compartilhar dados financeiros entre instituições, com consentimento do cliente. Os dois se complementam.
Só bancos podem oferecer BaaS?
Não. Bancos, instituições de pagamento e fintechs com licenças específicas podem estruturar plataformas de BaaS, desde que estejam em conformidade com as normas do Banco Central e demais reguladores.
Minha empresa precisa de licença do Banco Central para usar BaaS?
Na maioria dos casos, não. A licença é do provedor BaaS. A empresa contratante precisa seguir regras de compliance e o contrato com o provedor, mas não necessariamente ter autorização própria, dependendo do modelo. Em arranjos mais complexos, pode haver estruturas híbridas.
Quanto tempo leva para lançar um produto com BaaS?
Varia bastante de acordo com o escopo e a maturidade da empresa. Um MVP simples pode ser lançado em poucos meses, enquanto soluções complexas, com múltiplos produtos financeiros e integrações legadas, podem exigir um ciclo maior de projeto.
BaaS é só para empresas grandes?
Não. Pequenas e médias empresas também podem se beneficiar, especialmente aquelas que têm base relevante de clientes ou uma comunidade bem engajada e conseguem distribuir um produto financeiro com propósito.
Esse é o panorama geral. A partir daqui, o passo seguinte é transformar conceito em produto real dentro da jornada do seu cliente. É nessa hora que o BaaS deixa de ser teoria e vira vantagem competitiva.



